13 setembro 2025

Um Chamado à Consciência

A Busca: Um Chamado à Consciência

     

   
                                          




Em tempos de desigualdade crescente, fome persistente e exclusão social, torna-se urgente revisitar os fundamentos éticos que podem orientar uma sociedade mais justa. Entre os muitos caminhos possíveis, dois se destacam por sua força transformadora: os ensinamentos de Jesus Cristo e os ideais marxistas. Embora oriundos de tradições distintas — uma espiritual, outra filosófico-materialista — ambos convergem em um ponto essencial: a denúncia da injustiça e o chamado à libertação dos oprimidos.

Jesus, ao caminhar entre os pobres, ao tocar os excluídos e ao desafiar os poderosos, não apenas pregava o amor — ele vivia a subversão do egoísmo. Seu mandamento de “amar ao próximo como a si mesmo” não é uma sugestão moral, mas uma convocação radical à fraternidade. Ele ensinou que o Reino de Deus pertence aos humildes, aos que têm fome de justiça, aos que choram. E esse Reino não se constrói com ouro, mas com serviço, compaixão e partilha.

O marxismo, por sua vez, nasce da análise crítica das estruturas econômicas que perpetuam a exploração. Karl Marx identificou na luta de classes o motor da história, e propôs uma sociedade sem propriedade privada dos meios de produção, onde o trabalho fosse valorizado e os frutos distribuídos de forma equitativa. Embora tenha criticado a religião institucional como instrumento de dominação, o marxismo compartilha com o cristianismo a indignação diante da miséria e a esperança de um mundo novo.

A semelhança entre ambos se revela na prática: as primeiras comunidades cristãs viviam em comunhão de bens, como descrito em Atos dos Apóstolos. Ninguém passava necessidade, pois tudo era repartido conforme a necessidade de cada um. Essa vivência concreta de igualdade e solidariedade ecoa os princípios marxistas — não como ideologia, mas como ética encarnada.

Por outro lado, o capitalismo moderno se distancia desses valores. Ao colocar o lucro acima da vida, a competição acima da solidariedade e o consumo acima da dignidade, ele transforma relações humanas em transações. O sistema capitalista, embora capaz de gerar riqueza, frequentemente ignora os mais vulneráveis e perpetua ciclos de exclusão. Cristo nos alerta: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6:24). Esse alerta não é apenas espiritual — é profundamente político.

A reconciliação entre fé e justiça social não exige que o cristão se torne marxista, nem que o marxista abrace a fé. Mas exige que ambos reconheçam o valor da vida humana, a urgência da partilha e a necessidade de romper com estruturas que matam. A Teologia da Libertação, por exemplo, é uma expressão dessa ponte: ela lê o Evangelho com os olhos dos pobres e propõe uma fé encarnada na luta por dignidade. 

A Teologia da Libertação surgiu na América Latina nos anos 1960 e 70, especialmente entre padres e teólogos católicos que viviam em contextos de pobreza extrema. Ela não propõe riquezas materiais como promessa divina — pelo contrário, ela parte da ideia de que Jesus está ao lado dos pobres, dos oprimidos e dos marginalizados, e que o Evangelho deve ser vivido como prática concreta de justiça social.

Quando Jesus foi tentado no deserto, de fato o diabo lhe ofereceu “todos os reinos do mundo e sua glória” (Mateus 4:8-9). Jesus recusou, mostrando que o Reino de Deus não se constrói com poder terreno ou riquezas materiais. A Teologia da Libertação reconhece isso — e justamente por isso critica sistemas que acumulam riqueza às custas dos pobres.

O que ela propõe é que a fé cristã não pode ser indiferente ao sofrimento humano. Ela convida os cristãos a viverem o Evangelho com coragem, denunciando injustiças e lutando por dignidade. Muitos dos seus defensores, como Dom Hélder Câmara e Gustavo Gutiérrez, viveram com simplicidade e foram perseguidos por defenderem os pobres.

Claro, há críticas legítimas: alguns dizem que ela se aproxima demais de ideologias políticas, como o marxismo. Mas isso não significa que ela contradiz os ensinamentos de Jesus — significa que ela tenta aplicar esses ensinamentos à realidade concreta dos mais vulneráveis.

Em última instância, o que une Cristo e Marx é o sonho de um mundo onde ninguém seja descartado. Um mundo onde o pão seja de todos, onde o trabalho seja digno, onde o amor seja ação. Esse mundo não é utopia — é possibilidade. E começa quando escolhemos servir, partilhar e amar.



                                                                                                                                Artigo por Julius Britus

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